sábado, 7 de março de 2009

Capítulo II

Espectros de Sonhos




A noite passou mais rápido do que eu esperava. Pareciam ter se passado apenas minutos de conversa quando Sandro avisou que logo já passaria das duas. Não posso negar, foi bem divertido conhecer os amigos de Sofia. Eram todos animados e convidativos. Menos Allan. Ele estava sempre um pouco afastado de todos, e algumas vezes me fitava, logo dando um sorriso irônico e virando o rosto.
Sandro nos deixou em frente à nossa casa, e saímos do Chevette nos despedindo em um tom baixo. Vi-o indo com o carro até a casa ao lado e estacionando. Sofia olhou pra mim, e me puxou pelo braço para me apressar à entrar. Todas as luzes estavam desligadas, e supus que meus tios já estavam dormindo. Sofia fechou lentamente a porta e passou a chave, deixando-a encaixada na fechadura. Começamos a subir as escadas lentamente, para não fazer barulho. Antes de entrar no quarto, não pude evitar de olhar pela janela.
Por que aquela floresta me atraia tanto? Eu nunca fui de natureza, trilhas, nem nada assim! Isso me deixava intrigada.
- Gostou de todo mundo? – perguntou Sofia, agora sentando na cama, tirando os tênis que calçava.
- São todos muito legais, só... – deixei a frase no ar.
- Só o que?
- Allan.
- Ah, o Allan! – ela deu uma risada – Ele é novo aqui também, sabia? – era uma pergunta que não precisava de resposta, então ela continuou – Ninguém sabe de onde ele vem, nem nada. Semana passada Mauricio o trouxe pra nossa turma, disse que tinha conhecido ele num pub.
- Ah. Ele é meio quieto, não é?- Ela riu novamente, enquanto me olhava tirar as sandálias douradas amarradas no tornozelo – Que foi? Só estou dizendo o que eu acho!
Ela se levantou, indo pegar seu pijama no guarda roupa, enquanto eu procurava na minha bolsa uma camisetinha. Tirei o vestido e pus a blusa. Deitei-me na cama, e vi que Sofia já tinha se trocado e também já estava deitada.
- Posso desligar a luz?
- Pode, porque não?
- Me lembro que você tinha medo de escuro, Lily.
- Cale a boca e durma! – Retruquei, virando-me de lado, e ouvindo o riso dela.

Foi uma noite rápida e agradável. Quando acordei, fitei o teto de madeira branca, e já não me lembrava se havia sonhado. Provavelmente havia. Ultimamente eu não lembrava de mais nenhum sonho. Virei o rosto, olhando sonolentamente para a cama ao lado. Sofia já não estava mais dormindo. Procurei na minha mochila ao lado da cama meu celular, segurei e abri a tela para ver o horário. Não eram mais de sete da manhã, e o celular não tinha sinal, pra variar. Qual era o problema desse pessoal do campo? Porque acordar assim tão cedo e ainda viver sem celular, meu Deus! Eu não ia me acostumar com isso.
Esperei até que meu corpo se acostumasse com a idéia de que ia ter que se levantar dali a pouco. Sei que deitada ali, me espreguiçando de vez em quando, devo ter dado milhões de bocejos. Qual é! Eu acordo normalmente depois das nove! Eu sabia que não era obrigada a acordar na mesma hora que eles, pelo menos não por enquanto, nas primeiras semanas, mas mesmo assim achava falta de educação ficar roncando no quarto de cima, enquanto eles faziam preparos pro almoço, ou qualquer coisa do tipo no andar de baixo.
Levantei-me, por fim, depois de uns 15 minutos de violenta briga contra meu sono. Abri as cortinas da janela pra entrar uma luz no quarto. Me abaixei e peguei uma blusa larga na qual estava escrito “Make me happy”. Eu a tinha roubado da minha mãe no ano passado. Na época eu achava aquela blusa o máximo, agora eu não a usava fora de casa. Pus a blusa, e uma calça jeans clara que estava à mão. Fui ao banheiro do quarto e fiz o que tinha que fazer, nada que precise ser registrado.
Abri a porta do quarto e fui em direção às escadas.
-Tia? – chamei, olhando para o lado da cozinha enquanto descia as escadas e sentindo um cheiro bom de comida caseira.
- Estou aqui na sala, querida.
Desci as escadas de dois em dois degraus, e virei-me para a sala, sorrindo. Encontrei-a sentada no sofá, à frente da TV, anotando em um bloquinho alguma receita desses programas matinais. Andei até ela e me sentei a seu lado, beijando-lhe rosto.
- Como dormiu, Lilian?
- Muito bem, é tão tranqüilo aqui...
Ela deu uma risada baixa.
- É, você se acostuma. – Falou pra mim, e voltou a olhar para a TV, até que a interrompi.
- Onde está a Sofi?
- Está lá atrás no galpão, pintando.
- Pintando? – eu quis saber – O quê, a parede?
- Não, não! – Ela deu uma risada – Ela está pintando um dos seus quadros. Sempre pinta de manhã, quando sonha. Sabe, ela retrata os sonhos.
- Hum, vou lá dar uma olhada.
- É, vá sim.
Levantei-me, e Tia Julia voltou a observar a receita na tela da TV. Fui até a porta da frente e sai. Contornei a casa, e vi as portas que davam para o porão subterrâneo abertas. Não ouvia nada além de passos e pinceladas. Desci as escadas do porão, que agora era mais um estúdio de pintura, e vi Sofia de avental, em frente a uma tela que devia ter 1,30 m de altura e 2 m de comprimento. Estava com as mãos na cintura, e do pincel escorriam gotas amarelo-ouro para o chão.
- Sofia?
Ela soltou um gritinho e deu um pulo para trás, pondo a mão por cima do peito.
- AH! Quer me matar do coração, Lilian? Que horror!
- Er, me desculpe. – Falei meio constrangida, coçando a cabeça, e olhando para o chão.
- Ah, tudo bem, eu é que estava concentrada de mais, eu acho.
Olhando para o chão, vi que ele estava todo pintado com grandes gotas coloridas, como se pincéis gigantes tivessem caído por ali. Era bonito e caótico. Então levantei o rosto pra ver o que ela estava pintando na tela grande à sua frente. As bordas eram de um verde escuro que de vez em quando oscilava para um claro, e também alguns tons de verde quase preto. E no centro, um belo olho dourado planava. Parecia estar com raiva da primeira vez que eu olhei, mas então, na segunda, parecia triste, ou qualquer coisa nesse sentido.
- Ahn, - pigarreei, tirando ela de seus devaneios, olhando para a tela, concentrada – o que é isso?
- Ah, uma pintura. – fiz uma cara de debochada, e ela percebeu – Você diz, porque eu pintei isso?
- É, né!
- Não sei, sabe. Eu tenho tipo uns surtos. Eu pinto o que eu sonho. É tão rápido, tão real e tão...
- Perfeito. – completei a frase por ela, e Sofia levantou os ombros.
- Isso fica por você.
Examinei mais um pouco o olho dourado, olhando a quantidade de detalhes que ela tinha conseguido expressar ali na pintura.
- Posso ver os outros?- perguntei, tentando ser educada e não me meter na privacidade dela. – Se você não se importar, claro.
- Não seja boba, é óbvio que eu não me importo. Estão logo ali atrás da portinha – Ela apontou para um lugar atrás dela, uma portinhola de madeira velha.
Fui andando na direção apontada, tomando cuidado por onde eu pisava, pois havia algumas latas de tinta no chão, alguns pincéis e outros materiais de pintura. Pus a mão na maçaneta velha e empurrei a porta. Ali dentro, havia uma salinha que o antigo morador devia ter usado como adega. Não era tão pequena quanto eu esperava, e tinha telas escoradas pelas quatro paredes. Algumas penduradas e algumas no chão. Todas tinham os traços parecidos, assim como olho que Sofia estava pintando na outra sala. Tinham um toque de mistério; eram luas, lobos, e gramados com rosas.
Eu sentia um arrepio a cada quadro que via, eram absurdamente lindos. Fiquei observando a manhã toda, pelo que me pareceu, quando ouvi de leve o toque na porta da ex-adega, enquanto examinava os quadros, sentada ao chão.
- Ah, mamãe está chamando. – falou Sofia, olhando-me junto aos quadros – Pro almoço.
- Já é hora do almoço! - exclamei me pondo de pé – Quer dizer que fiquei a manhã toda examinando os seus quadros?
- Pura perda de tempo – ela deu de ombros. – Eles não vão sair daí mesmo. São apenas memórias de sonhos perturbados, é a única forma de eu conseguir tirá-los da minha cabeça.
- Você devia vendê-los. Ou pôr em exposição, sabe, ia dar algum dinheiro...
- Os sonhos são meus! As lembranças são minhas, e eu faço o que quiser com elas, entendeu Lilian?
- Me desculpe, eu só queria ajudar, eu não queria...
- Vamos subir, pra almoçar.
- Sofi! Por favor, não fique brava!
Ela estava brava, e eu podia ver isso. Almoçou de cabeça baixa, comendo rápido, e assim que terminou se levantou e foi para o quarto.
- Sofia, hoje é seu dia de lavar a louça, filha! – Falou tia Julia, enquanto a via subir as escadas correndo.
- Pode deixar que eu lavo, tia, não tem problema.
- Não sei o que essa menina tem. Toda manhã que ela passa pintando, volta assim, agressiva, brava e quieta. Mas logo depois do almoço tudo volta ao normal, sabe.
Assenti com a cabeça, enquanto recolhia os pratos da mesa, pensando nas imagens sombrias das telas. Me perguntava se alguma vez Tia Julia já tinha visto alguns dos quadros. Tinha certeza de que se tivesse visto, teria entendido.

Eram mais ou menos três da tarde, e eu estava vendo um programa de auditório, quando ouvi a campainha e fui obrigada a atender, pois estava sozinha em casa. Ao abrir a porta, Sandro e Mauricio estavam me olhando, com seus melhores sorrisos de simpatia no rosto. Sandro foi o primeiro a falar.
- Ah, oi Lilian.
- Boa tarde, meninos. – Sorri em resposta, olhando para os dois. – Ah, a Sofia não está, ela foi ao centro com a mãe dela.
- Ah... – Foi Mauricio que falou, em um tom decepcionado. – Íamos convidar vocês pra um piquenique. – Ele apontou para uma caminhonete preta, onde no banco do carona estava Luciane, que acenou pra mim. Na capota estavam as gêmeas, Allan e Tai, que sorriram em minha direção. – Mesmo assim, vem com a gente.
- É, Lilian, vem. Vai ser divertido.
E o que eu tinha a perder em sair com eles? Eles eram meus amigos agora, meus únicos amigos. E eu não podia desperdiçar a chance de tentar ser feliz ali, com eles. Eu precisava daquilo.
- Tudo bem, eu acho que tia Julia não vai ligar. Só me deixe fazer uma coisa. Me esperem no carro.
Eles assentiram e eu entrei em casa, pegando uma caneta e escrevendo em uma folhinha um recado para Tia Julia.

"Dei uma saída com o Sandro e o resto do pessoal. Volto antes do jantar. Beijos, Lily."


Colei o bilhete na geladeira com um imã e sai correndo pela porta, trancando-a antes de sair. Subi na capota da caminhonete e me sentei, sentindo o vento nos cabelos quando ela começou a andar.
- Onde vai ser o piquenique? – perguntei, ao ver o carro andar em campo aberto, pela grama, atrás da casa de Sofia, indo em direção à floresta.
- Não é óbvio? – disse Giovana, fazendo uma careta. Trajava um de seus vestidos curtos, só que dessa vez era azul claro. – Vamos pra floresta, o Allan disse que tem um espaço vazio bem no meio dela, e que é lindo, onde podemos nos sentar e fazer o piquenique. Não é maravilhoso?
Eu olhei pra ela, e ainda não sabia se a expressão de “vocês são malucos” estava impressa em meu rosto, pois ela ainda sorria, com os olhos brilhando. Mas eu acho que Allan reparou. Tocou no meu braço, dando um sorriso sarcástico.
- Não se preocupe, Lilian. – ele ainda sustentava o sorriso sarcástico no rosto, olhando-me de lado. – É perfeitamente seguro.
- Como você pode ter tanta certeza? – disparei contra ele, e ele levantou os ombros, dando indiferença;
- Eu mesmo me certifiquei disso.
Revirei os olhos, e olhei Diulia, que estava espremida em um canto da caminhonete, olhando pra ele com quem queria dizer “pare de se achar, garoto esquisito!”. Talvez eu quisesse dizer isso também, mas ao mesmo tempo não podia.
Acho que demorou quase dez minutos, ou menos, para atravessar o campo aberto até chegarmos à frente da floresta, onde começavam a se juntar árvores, até ela ficar densa o suficiente para ser escuro lá dentro, mesmo fazendo um sol dos infernos.
- Última parada: - anunciou Sandro, descendo do banco do motorista – Floresta Woodcarper!
Fiquei imaginando como eu nunca tinha percebido aquela floresta quando morava aqui ainda há alguns anos, porque não a percebera, ou porque agora eu me sentia tão atraída a ela, como se cada passo que eu desse – mesmo que estivesse segurando um pote de sanduíche de atum – fizesse meu coração disparar progressivamente, como que querendo abandonar meu corpo e fugir para um abrigo longe dali. Eu simplesmente não entendia o porquê, eu simplesmente...
-Não entendo como essa mochila pode estar tão pesada, Sandro!
Rugiu Luciane, pondo uma mochila de pano simples nas costas, enquanto eu balançava a cabeça, fugindo dos meus devaneios.

4 comentários:

  1. Nhin,,, Capitulo 2,, que emoção *o*
    Adorei o capitulo 2, quer dizer...
    Lily na floresta que a atrai com o
    Allan... Tudo pode acontecer xD
    Acho também que o fato da Sofia ser
    meio bipolar vai acabar causando um cime
    por parte do relacionamento de Lily
    com seus amigos.
    Começo a gostar cada vez mais da sofy
    Se mostrando ainda mais misteriosa com
    suas pinturas. Que segredos esconde o passado
    da ainda tão nova Sofia? tã tã tã
    Bem,,, só na sequencia pra saber. xD
    Aguardando o terceiro õ/ *-*

    Ps: fã nº1 ok

    _Rapha Dias

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